sábado, 20 de abril de 2013

A Crucificação de Cristo, a partir de um ponto de vista médico


A Crucificação de Cristo,
a partir de um ponto de vista médico
de C. Truman Davis

Lendo o livro de Jim Bishop “O Dia Que Cristo Morreu”, eu percebi que durante vários anos eu tinha tornado a crucificação de Jesus mais ou menos sem valor, que havia crescido calos em meu coração sobre este horror, por tratar seus detalhes de forma tão familiar - e pela amizade distante que eu tinha com nosso Senhor. Eu finalmente havia percebido que, mesmo como médico, eu não entendia a verdadeira causa da morte de Jesus. Os escritores do evangelho não nos ajudam muito com este ponto, porque a crucificação era tão comum naquele tempo que, aparentemente, acharam que uma descrição detalhada seria desnecessária. Por isso só temos as palavras concisas dos evangelistas “Então, Pilatos, após mandar açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado.”
Eu não tenho nenhuma competência para discutir o infinito sofrimento psíquico e espiritual do Deus Encarnado que paga pelos pecados do homem caído. Mas parecia a mim que como um médico eu poderia procurar de forma mais detalhada os aspectos fisiológicos e anatômicos da paixão de nosso Senhor. O que foi que o corpo de Jesus de Nazaré de fato suportou durante essas horas de tortura?

Dados históricos
Isto me levou primeiro a um estudo da prática de crucificação, quer dizer, tortura e execução por fixação numa cruz. Eu estou endividado a muitos que estudaram este assunto no passado, e especialmente para um colega contemporâneo, Dr. Pierre Barbet, um cirurgião francês que fez uma pesquisa histórica e experimental exaustiva e escreveu extensivamente no assunto.
Aparentemente, a primeira prática conhecida de crucificação foi realizado pelos persas. Alexandre e seus generais trouxeram esta prática para o mundo mediterrâneo--para o Egito e para Cartago. Os romanos aparentemente aprenderam a prática dos cartagineses e (como quase tudo que os romanos fizeram) rapidamente desenvolveram nesta prática um grau muito alto de eficiência e habilidade. Vários autores romanos (Lívio, Cícero, Tácito) comentam a crucificação, e são descritas várias inovações, modificações, e variações na literatura antiga.
Por exemplo, a porção vertical da cruz (ou “stipes”) poderia ter o braço que cruzava (ou “patibulum”) fixado cerca de um metro debaixo de seu topo como nós geralmente pensamos na cruz latina. A forma mais comum usada no dia de nosso Senhor, porém, era a cruz “Tau”, formado como nossa letra “T”. Nesta cruz o patibulum era fixado ao topo do stipes. Há evidência arqueológica que foi neste tipo de cruz que Jesus foi crucificado. Sem qualquer prova histórica ou bíblica, pintores Medievais e da Renascença nos deram o retrato de Cristo levando a cruz inteira. Mas o poste vertical, ou stipes, geralmente era fixado permanentemente no chão no local de execução. O homem condenado foi forçado a levar o patibulum, pesando aproximadamente 50 quilos, da prisão para o lugar de execução.
Muitos dos pintores e a maioria dos escultores de crucificação, também mostram os cravos passados pelas palmas. Contos romanos históricos e trabalho experimental estabeleceram que os cravos foram colocados entre os ossos pequenos dos pulsos (radial e ulna) e não pelas palmas. Cravos colocados pelas palmas sairiam por entre os dedos se o corpo fosse forçado a se apoiar neles. O equívoco pode ter ocorrido por uma interpretação errada das palavras de Jesus para Tomé, “vê as minhas mãos”. Anatomistas, modernos e antigos, sempre consideraram o pulso como parte da mão.
Um titulus, ou pequena placa, declarando o crime da vítima normalmente era colocado num mastro, levado à frente da procissão da prisão, e depois pregado à cruz de forma que estendia sobre a cabeça. Este sinal com seu mastro pregado ao topo teria dado à cruz um pouco da forma característica da cruz latina.

O suor como gotas de sangue
O sofrimento físico de Jesus começou no Getsêmani. Em Lucas diz: "E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra." (Lc 22:44) Todos os truques têm sido usados por escolas modernas para explicarem esta fase, aparentemente seguindo a impressão que isto não podia acontecer. No entanto, consegue-se muito consultando a literatura médica. Apesar de muito raro, o fenômeno de suor de sangue é bem documentado. Sujeito a um stress emocional, finos capilares nas glândulas sudoríparas podem se romper, misturando assim o sangue com o suor. Este processo poderia causar fraqueza e choque. Atenção médica é necessária para prevenir hipotermia.
Após a prisão no meio da noite, Jesus foi levado ao Sinédrio e Caifás o sumo sacerdote, onde sofreu o primeiro traumatismo físico. Jesus foi esbofeteado na face por um soldado, por manter-se em silêncio ao ser interrogado por Caifás. Os soldados do palácio tamparam seus olhos e zombaram dele, pedindo para que identificasse quem o estava batendo, e esbofeteavam a Sua face.

A condenação
De manhã cedo, Jesus, surrado e com hematomas, desidratado, e exausto por não dormir, é levado ao Pretório da Fortaleza Antônia, o centro de governo do Procurador da Judéia, Pôncio Pilatos. Você deve já conhecer a tentativa de Pilatos de passar a responsabilidade para Herodes Antipas, tetrarca da Judéia. Aparentemente, Jesus não sofreu maus tratos nas mãos de Herodes e foi devolvido a Pilatos. Foi em resposta aos gritos da multidão que Pilatos ordenou que Bar-Abbas fosse solto e condenou Jesus ao açoite e à crucificação.
Há muita diferença de opinião entre autoridades sobre o fato incomum de Jesus ser açoitado como um prelúdio à crucificação. A maioria dos escritores romanos deste período não associam os dois. Muitos peritos acreditam que Pilatos originalmente mandou que Jesus fosse açoitado como o castigo completo dele. A pena de morte através de crucificação só viria em resposta à acusação da multidão de que o Procurador não estava defendendo César corretamente contra este pretendente que supostamente reivindicou ser o Rei dos judeus.
Os preparativos para as chicotadas foram realizados quando o prisioneiro era despido de suas roupas, e suas mãos amarradas a um poste, acima de sua cabeça. É duvidoso se os Romanos teriam seguido as leis judaicas quanto às chicotadas. Os judeus tinham uma lei antiga que proibia mais de 40 (quarenta) chicotadas.

O açoite
O soldado romano dá um passo a frente com o flagrum (açoite) em sua mão. Este é um chicote com várias tiras pesadas de couro com duas pequenas bolas de chumbo amarradas nas pontas de cada tira. O pesado chicote é batido com toda força contra os ombros, costas e pernas de Jesus. Primeiramente as pesadas tiras de couro cortam apenas a pele. Então, conforme as chicotadas continuam, elas cortam os tecidos debaixo da pele, rompendo os capilares e veias da pele, causando marcas de sangue, e finalmente, hemorragia arterial de vasos da musculatura.
As pequenas bolas de chumbo primeiramente produzem grandes, profundos hematomas, que se rompem com as subseqüentes chicotadas. Finalmente, a pele das costas está pendurada em tiras e toda a área está uma irreconhecível massa de tecido ensangüentado. Quando é determinado, pelo centurião responsável, que o prisioneiro está a beira da morte, então o espancamento é encerrado.
Então, Jesus, quase desmaiando é desamarrado, e lhe é permitido cair no pavimento de pedra, molhado com Seu próprio sangue. Os soldados romanos vêm uma grande piada neste Judeu, que se dizia ser o Rei. Eles atiram um manto sobre os seus ombros e colocam um pau em suas mãos, como um cetro. Eles ainda precisam de uma coroa para completar a cena. Um pequeno galho flexível, coberto de longos espinhos é enrolado em forma de uma coroa e pressionado sobre Sua cabeça. Novamente, há uma intensa hemorragia (o couro do crânio é uma das regiões mais irrigadas do nosso corpo).
Após zombarem dele, e baterem em sua face, tiram o pau de suas mãos e batem em sua cabeça, fazendo com que os espinhos se aprofundem em sua cabeça. Finalmente, cansado de seu sádico esporte, o manto é retirado de suas costas. O manto, por sua vez, já havia aderido ao sangue e grudado nas feridas. Como em uma descuidada remoção de uma atadura cirúrgica, sua retirada causa dor toturante. As feridas começam a sangrar como se ele estivesse apanhando outra vez.

A cruz
Em respeito ao costume dos judeus, os romanos devolvem a roupa de Jesus. A pesada barra horizontal da cruz á amarrada sobre seus ombros, e a procissão do Cristo condenado, dois ladrões e o destacamento dos soldados romanos para a execução, encabeçado por um centurião, começa a vagarosa jornada até o Gólgota. Apesar do esforço de andar ereto, o peso da madeira somado ao choque produzido pela grande perda de sangue, é demais para ele. Ele tropeça e cai. As lascas da madeira áspera rasgam a pele dilacerada e os músculos de seus ombros. Ele tenta se levantar, mas os músculos humanos já chegaram ao seu limite.
O centurião, ansioso para realizar a crucificação, escolhe um observador norte-africano, Simão, um Cirineu, para carregar a cruz. Jesus segue ainda sangrando, com o suor frio de choque. A jornada de mais de 800 metros da fortaleza Antônia até Gólgota é então completada. O prisioneiro é despido - exceto por um pedaço de pano que era permitido aos judeus.

A crucificação
A crucificação começa: Jesus é oferecido vinho com mirra, um leve analgésico. Jesus se recusa a beber. Simão é ordenado a colocar a barra no chão e Jesus é rapidamente jogado de costas, com seus ombros contra a madeira. O legionário procura a depressão entre os osso de seu pulso. Ele bate um pesado cravo de ferro quadrado que traspassa o pulso de Jesus, entrando na madeira. Rapidamente ele se move para o outro lado e repete a mesma ação, tomando o cuidado de não esticar os ombros demais, para possibilitar alguma flexão e movimento. A barra da cruz é então levantada e colocado em cima do poste, e sobre o topo é pregada a inscrição onde se lê: "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus".
O pé esquerdo agora é empurrado para trás contra o pé direito, e com ambos os pés estendidos, dedos dos pés para baixo, um cravo é batido atraves deles, deixando os joelhos dobrados moderadamente. A vítima agora é crucificada. Enquanto ele cai para baixo aos poucos, com mais peso nos cravos nos pulsos a dor insuportável corre pelos dedos e para cima dos braços para explodir no cérebro – os cravos nos pulsos estão pondo pressão nos nervos medianos. Quando ele se empurra para cima para evitar este tormento de alongamento, ele coloca seu peso inteiro no cravo que passa pelos pés. Novamente há a agonia queimando do cravo que rasga pelos nervos entre os ossos dos pés.
Neste ponto, outro fenômeno ocorre. Enquanto os braços se cansam, grandes ondas de cãibras percorrem seus músculos, causando intensa dor. Com estas cãibras, vem a dificuldade de empurrar-se para cima. Pendurado por seus braços, os músculos peitorais ficam paralisados, e o músculos intercostais incapazes de agir. O ar pode ser aspirado pelos pulmões, mas não pode ser expirado. Jesus luta para se levantar a fim de fazer uma respiração. Finalmente, dióxido de carbono é acumulado nos pulmões e no sangue, e as cãibras diminuem. Esporadicamente, ele é capaz de se levantar e expirar e inspirar o oxigênio vital. Sem dúvida, foi durante este período que Jesus consegui falar as sete frases registradas:
Jesus olhando para os soldados romanos, lançando sorte sobre suas vestes disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. " (Lucas 23:34)
Ao ladrão arrependido, Jesus disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso." (Lucas 23:43)
Olhando para baixo para Maria, sua mãe, Jesus disse: “Mulher, eis aí teu filho.”E ao atemorizado e quebrantado adolescente João, “Eis aí tua mãe.” (João 19:26-27)
O próximo clamor veio do início do Salmo 22, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Ele passa horas de dor sem limite, ciclos de contorção, câimbras nas juntas, asfixia intermitente e parcial, intensa dor por causa das lascas enfiadas nos tecidos de suas costas dilaceradas, conforme ele se levanta contra o poste da cruz. Então outra dor agonizante começa. Uma profunda dor no peito, enquanto seu pericárdio se enche de um líquido que comprime o coração.
Lembramos o Salmo 22 versículo 14 “Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim.”
Agora está quase acabado - a perda de líquidos dos tecidos atinge um nível crítico - o coração comprimido se esforça para bombear o sangue grosso e pesado aos tecidos - os pulmões torturados tentam tomar pequenos golpes de ar. Os tecidos, marcados pela desidratação, mandam seus estímulos para o cérebro.
Jesus clama “Tenho sede!” (João 19:28)
Lembramos outro versículo do profético Salmo 22 “Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte.”
Uma esponja molhada em “posca”, o vinho azedo que era a bebida dos soldados romanos, é levantada aos seus lábios. Ele, aparentemente, não toma este líquido. O corpo de Jesus chega ao extremo, e ele pode sentir o calafrio da morte passando sobre seu corpo. Este acontecimento traz as suas próximas palavras - provavelmente, um pouco mais que um torturado suspiro “Está consumado!”. (João 19:30)
Sua missão de sacrifício está concluída. Finalmente, ele pode permitir o seu corpo morrer.
Com um último esforço, ele mais uma vez pressiona o seu peso sobre os pés contra o cravo, estica as suas pernas, respira fundo e grita seu último clamor:“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lucas 23:46).
O resto você sabe. Para não profanar a Páscoa, os judeus pediam para que o réus fossem despachados e removidos das cruzes. O método comum de terminar uma crucificação era por crucificatura, quebrando os ossos das pernas. Isto impedia que a vítima se levantasse, e assim eles não podiam aliviar a tensão dos músculos do peito e logo sufocaram. As pernas dos dois ladrões foram quebradas, mas, quando os soldados chegaram a Jesus viram que não era necessário.

Conclusão
Aparentemente, para ter certeza da morte, um soldado traspassou sua lança entre o quinto espaço das costelas, enfiado para cima em direção ao pericárdio, até o coração. O verso 34 do capítulo 19 do evangelho de João diz: "E imediatamente verteu sangue e água." Isto era saída de fluido do saco que recobre o coração, e o sangue do interior do coração. Nós, portanto, concluímos que nosso Senhor morreu, não de asfixia, mas de um enfarte de coração, causado por choque e constrição do coração por fluidos no pericárdio.
Assim nós tivemos nosso olhar rápido – inclusive a evidência médica – daquele epítome de maldade que o homem exibiu para com o Homem e para com Deus. Foi uma visão terrível, e mais que suficiente para nos deixar desesperados e deprimidos. Como podemos ser gratos que nós temos o grande capítulo subseqüente da clemência infinita de Deus para com o homem – o milagre da expiação e a expectativa da manhã triunfante da Páscoa.
© Copyright C. Truman Davis

C. Truman Davis é um Oftalmologista nacionalmente respeitado, vice-presidente da Associação Americana de Oftalmologia, e uma figura ativa no movimento de escolas Cristãs. Ele é o fundador e presidente do excelente Trinity Christian School em Mesa, Arizona, e um docente do Grove City College.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica multiplica os fiéis em um bairro islâmico

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica multiplica os fiéis em um bairro islâmico


Revolucionou a igreja francesa: pegou uma paróquia do centro de Marselha que ia ser fechada e agora não para de batizar adultos.

Javier Lozano/ReL.

“Trazer tantas almas para Deus quanto seja possível”. O padre Michel Marie Zanotti Sorkine levou a sério esta frase que se tornou o seu principal objetivo como sacerdote.

Assim o faz depois de ter transformado uma igreja que estava para ser encerrada e demolida na paróquia com mais vida de Marselha. Seu mérito é ainda maior pelo fato de o templo estar situado em um bairro com uma enorme presença de muçulmanos em uma cidade onde menos de 1% da população é católica praticante.

Era músico de sucesso
A chave para este sacerdote que anteriormente fora músico de sucesso em diversos cabarés de Paris e Montecarlo é a “presença”; tornar Deus presente no mundo de hoje. As portas de sua igreja estão todos os dias totalmente abertas e ele se veste com batina, porque “todos, cristãos ou não, têm o direito de ver um sacerdote fora da igreja”.

De 50 paroquianos por Missa a 700
Seu balanço é impressionante. Quando chegou em 2004 à paróquia de São Vicente de Paulo do centro de Marselha a igreja permanecia fechada durante a semana e a única missa dominical era celebrada na cripta. A esta missa compareciam apenas 50 pessoas.

Como ele próprio conta, a primeira coisa que fez foi abrir o templo todos os dias e celebrar no altar-mor. Agora a igreja permanece aberta quase o dia todo e faltam cadeiras extras para acomodar os fiéis. Mais de 700 todos os domingos, e o número é ainda maior nas grandes festas. Quase 200 adultos foram batizados desde que chegou, 34 nesta última Páscoa. Tornou-se um fenômeno de massas não apenas em Marselha, mas também em toda França, com reportagens da mídia de todo o país, atraída pela quantidade de conversões.

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica
Uma das principais iniciativas do padre Zanotti Sorkine para revitalizar a fé da paróquia e conseguir tal afluência de pessoas de todas as idades e condições é a confissão. Antes da abertura do templo, às 8 da manhã, já há pessoas esperando na porta para poder receber este sacramento ou para pedir conselhos a este sacerdote francês.

Como relatam seus paroquianos, o padre Michel Marie está boa parte do dia no confessionário, muitas vezes até depois das onze da noite. E se não estiver lá, pode ser encontrado vagando por seus corredores ou na sacristia, pois sabe da necessidade de que os sacerdotes estejam sempre visíveis e próximos para sair em socorro de todo aquele que necessitar.

A igreja sempre aberta
Outra característica sua bastante destacada é a de ter o templo permanentemente aberto. Isto gerou críticas por parte de sacerdotes de sua diocese, mas ele afirma que a missão da paróquia é “permitir e facilitar o encontro do homem com Deus” e o padre não pode ser um impedimento.

O templo deve favorecer o nexo com Deus
Em uma entrevista televisiva afirmava resolutamente que “se hoje em dia a igreja não está aberta é porque de certa maneira não temos nada a propor; que tudo que oferecemos acabou. Ao passo que enquanto a igreja está o dia inteiro aberta, as pessoas vêm. Praticamente nunca tivemos problemas com roubos. Há pessoas que rezam e garanto que esta igreja se transforma em um instrumento extraordinário que favorece o encontro entre a alma e Deus”.

Era a última oportunidade para salvar a paróquia
O bispo enviou-o a esta paróquia como última oportunidade para salvá-la e o padre levou bastante a sério a recomendação de abrir as portas. “Há cinco portas sempre abertas e assim todo mundo poder ver a beleza da casa de Deus”. 90.000 carros e milhares de transeuntes e turistas encontram a igreja aberta e com os sacerdotes às vistas. Este é o seu método: a presença de Deus e de seu povo no mundo secularizado.

A importância da liturgia e da limpeza
E aqui chegamos a outro ponto-chave para este sacerdote. Tendo acabado de chegar e com a ajuda de um grupo de leigos, renovou a paróquia, limpou-a e deixou-a resplandecente. Para ele este é outro motivo pelo qual as pessoas optam por voltar à igreja. “Como querer que alguém creia que Cristo vive em um lugar se não estiver tudo impecável? É impossível”.

Por isso, as toalhas do altar e do Sacrário têm um branco imaculado. “O detalhe é que faz a diferença. Com o trabalho bem feito, damo-nos conta do amor que manifestamos aos seres e às coisas”. E assegura de modo taxativo: “Creio que quando se penetra em uma igreja onde não está tudo impecável é impossível crer na Presença gloriosa de Jesus”.

A liturgia torna-se o ponto central de seu ministério e muitas pessoas foram atraídas a esta igreja pela riqueza da Eucarística. “Esta é a beleza que conduz a Deus”, afirma.

As missas estão sempre cheias e nelas há procissões solenes, incenso, cânticos cuidados... Tudo feito detalhadamente. “Tenho um cuidado especial na celebração da Missa para mostrar o significado do sacrifício eucarístico e a realidade da Presença”. “Não se concebe a vida espiritual sem a adoração do Santíssimo Sacramento e sem um ardente amor por Maria”, razão pela qual introduziu a adoração e a récita diária do Rosário dirigida por estudantes e jovens.

Seus sermões são também bastante esperados. Aliás, seus paroquianos têm acesso a eles através da internet. Neles o padre sempre chama à conversão, pela salvação do homem. Em sua opinião, a falta desta mensagem na Igreja de hoje “é talvez uma das principais causas da indiferença religiosa que vivemos no mundo contemporâneo”. Antes de tudo deve-se ter clareza na mensagem evangélica. Por isso adverte-nos contra a frase tão batida que diz “todos vamos para o Céu”. Esta é para ele “outra canção que pode nos enganar”, pois se deve lutar, começando pelo sacerdote, para se chegar ao Paraíso.

O cura de batina
Se existe algo que distingue este alto sacerdote em um bairro de maioria muçulmana, é a sua batina, que sempre veste, e o rosário entre as mãos. Para ele é essencial que o padre possa ser distinguido entre as pessoas. “Todos os homens, começando por aquele que cruza o umbral da igreja, têm o direito de se reunir com um sacerdote. O serviço que oferecemos é tão essencial para a salvação que nossa visão deve tornar-se tangível e eficaz para permitir esta reunião”.

Deste modo, para o padre Michel, o sacerdote o é 24 horas por dia. “O serviço deve ser permanente. Que pensaria você de um marido que, em seu caminho para o escritório pela manhã, tirasse sua aliança?”.

Neste aspecto é muito insistente: “quanto àqueles que dizem que o hábito cria distância, deve-se dizer que não conhecem o coração dos pobres, para os quais, o que se vê diz mais que o que se diz”.

Por último recorda um detalhe importante. A primeira coisa que os regimes comunistas faziam era eliminar o hábito eclesiástico, sabendo da importância da comunicação da fé. “Isto merece a atenção da igreja da França”, afirma.

No entanto, sua missão não é desenvolvida unicamente no interior do templo, pois ele também é um personagem conhecido em todo o bairro, até mesmo pelos muçulmanos. Toma café da manhã nos cafés do bairro; ali fala e se reúne com os fiéis e com as pessoas não praticantes. Chama-o de sua pequena capela. Assim conseguiu que muitos vizinhos sejam agora assíduos da paróquia e transformaram esta igreja de São Vicente de Paulo em uma paróquia totalmente ressuscitada.

Uma vida peculiar: cantor de cabarés
A vida do padre Michel Marie sempre esteve em movimento. Nasceu em 1959 e tem raízes russas, italianas e corsas. Aos 13 anos perdeu sua mãe, o que lhe causou uma “ruptura devastadora” e o fez unir-se ainda mais à Virgem Maria.

Por ter um grande talento musical, compensou a perda de sua mãe com a música. Em 1977, após ser convidado a tocar no café Paris de Montecarlo, mudou para a capital onde começou sua carreira de compositor e músico de cabarés. Todavia a chamada de Deus era mais forte e em 1988 entrou para a ordem dominicana por causa de sua devoção a São Domingos. Esteve com eles por quatro anos, quando, diante do fascínio por São Maximiliano Kolbe, passou para a ordem franciscana, onde também permaneceu por quatro anos.

Foi em 1999 que foi ordenado sacerdote para a diocese de Marselha com quase quarenta anos. Além de músico, agora dedicado a Deus, também é escritor de sucesso, com seis livros publicados, e poeta.

Tradução: William Bottazzini
Texto original: http://www.religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=25434.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fé de jovens católicos surpreende jornais americanos

Fé de jovens católicos surpreende jornais americanos



A imprensa americana teve de ceder. Diante da estrondosa demonstração de fé e civilidade dos milhares de jovens que participaram da recente "Marcha pela Vida" - considerada a maior de toda a história dos EUA - os jornais do país não tiverem outra alternativa, senão reconhecer a ascensão da Igreja Católica no meio da juventude. Um duro golpe para o establishmentesquerdista e anti-cristão que trabalhou durante anos para perverter o senso crítico das gerações mais jovens e que agora é obrigado a assistir a desastrosa derrocada de suas pretensões.

A confirmação vem por meio de um artigo do professor de Ciência Política da Universidade Michigan, Michael J. New, publicado na versão eletrônica da revista National Review. Comentando a cobertura da mídia dada à Marcha pela Vida, o professor descreve a preocupação do movimento abortista em relação à falta de jovens interessados pelo assunto. "Com poucas exceções, a grande mídia parece estar muito pessimista em relação ao movimento pró-escolha", afirmou New.

Apesar da alegria dos abortistas pela eleição de Obama, Michael New declara que isso não foi o suficiente para acabar com o negativismo quanto à causa do aborto. Citando matérias publicadas pelos jornais The New York Times e The Washington Post, o cientista político ressalta que mesmo a famosa feminista Nancy Keenan desabafou, recentemente, seu temor quanto ao futuro dos grupos pró-aborto.


Na mesma linha, a editora do site altcatholicah.com, Ashley McGuire, fez interessantes declarações sobre o crescimento da juventude católica, num artigo publicado no reconhecido jornal esquerdista, The Washington Post. Surpreendida com a quantidade de jovens presentes em algumas Missas que frequentara e em palestras de notáveis conservadores, Ashley McGuire explicou que a adesão desses novos jovens à fé católica não é simplesmente uma moda, mas sim um 'Grande Despertar Católico', "é o renascer da ortodoxia católica no meio dos jovens na Igreja Católica".

Ashley McGuire, 26 anos, é uma jovem escritora que se convertou ao catolicismo há apenas cinco anos. Desde então, a moça tem trabalhado intensamente através de seu blog,altcatholicah.com - um site de cunho conservador dedicado especialmente às mulheres - para tornar mais conhecida e atrativa a doutrina da Igreja quanto à "paternidade responsável". McGuire conta que sua paixão pela Igreja Católica tornou-se maior quando ela finalmente percebeu que os ensinamentos católicos eram os únicos realmente sólidos e com bases milenares. "Alguns católicos, como eu, nos convertemos do protestantismo, ao perceber que a única instituição no mundo que se manteve firme através dos milênios nos assuntos mais importantes da época foi a Igreja Católica", declarou McGuire.

McGuire atribui esse despertar católico no meio da juventude ao sufocamento das gerações anteriores pelas teses liberais e promíscuas. "Nós nascemos num mundo em que milhões de bebês eram abortados a cada ano, onde incontáveis outras crianças que não nasceram estão congeladas em laboratórios para experiências, onde se fala que o gênero é uma opção e que o casamento é amorfo e solúvel. Herdamos o inferno na terra. E achamos que era demais.", frisou a jovem, que também faz parte da Catholic Association nos Estados Unidos.


Ashley McGuire ressalta em seu artigo que a nova geração de jovens católicos também é extremamente solícita e aberta às orientações do Papa Bento XVI. Além disso, os novos seminaristas e religiosas estão cada vez mais interessados nas práticas tradicionais da fé católica ao passo que, enquanto notáveis conventos progressistas estão definhando, as vocações dos institutos conservadores nunca cresceram tanto como agora. "Nós queremos menos oba-oba e mais Panis Angelicus", resume a jovem. Sobre a juventude que participou da Marcha pela Vida, Macguire observa que a grande mensagem deles na verdade era esta:"Tome nota. Nós somos o futuro. E nós estamos pegando fogo por Jesus Cristo e por sua Igreja".

Testemunhos como esse de Ashley McGuire, a Marcha pela Vida realizada nos Estados Unidos e tantos outros movimentos jovens da Igreja, sobretudo a Jornada Mundial da Juventude, nos dão um alento de esperança e coragem quanto às próximas gerações. E mostram que, mesmo com movimentos contrários, a Igreja Católica vive e tem futuro. Além disso, está disposta a corresponder ao chamado de Jesus Cristo, Aquele que veio para "lançar fogo no mundo" (Lc 12, 49). Dizia o escritor G.K. Chesterton que "somente a ortodoxia católica faz o homem feliz: é como os muros postos ao redor de um precipício onde pode brincar uma porção de crianças". Os jovens, finalmente, começaram a descobrir esses muros.

Fonte:http://padrepauloricardo.org

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Papa: Desejo de conhecer Deus está em todos, inclusive nos ateus


O Papa: Desejo de conhecer Deus está em todos, inclusive nos ateus

VATICANO, 16 Jan. 13 (ACI/EWTN Noticias) .- Em sua habitual catequese das quartas-feiras, o Papa Bento XVI assinalou que o desejo de realmente conhecer Deus está em todos os homens, inclusive naqueles que se dizem ateus.

Diante dos milhares de fiéis presentes na Sala Pablo VI no Vaticano e em sua catequese dedicada à Revelação do Senhor, o Santo Padre assinalou que "o desejo de conhecer Deus realmente, isso é, de ver a face de Deus é inerente a todos os homens, também nos ateus. E nós temos talvez inconscientemente este desejo de ver simplesmente quem é Ele, o que é, quem é para nós. Mas este desejo se realiza seguindo Cristo".

Bento XVI ressaltou que " O importante é que sigamos Cristo não somente no momento no qual temos necessidade e quando encontramos um espaço nas nossas ocupações cotidianas, mas com a nossa vida enquanto tal. Toda a nossa existência deve ser orientada ao encontro com Jesus Cristo, ao amor por Ele; e, nisso, um lugar central deve ter o amor pelo próximo".

"Aquele amor que, à luz do Crucifixo, nos faz reconhecer a face de Jesus no pobre, no fraco, naquele que sofre. Isso é possível somente se a verdadeira face de Jesus tornou-se familiar para nós na escuta da sua Palavra, no falar interiormente, no entrar nesta Palavra de forma que realmente O encontremos, e naturalmente no Mistério da Eucaristia".

O Papa ressaltou que "no Evangelho de São Lucas, é significativa a parte dos dois discípulos de Emaús, que reconhecem Jesus ao partir o pão, mas preparados pelo caminho com Ele, preparados pelo convite que fizeram a Ele de permanecer com eles, preparados pelo diálogo que fez arder os seus corações; assim, ao fim, veem Jesus".

Bento XVI se referiu também à Revelação de Deus no Antigo Testamento aonde o Senhor, "depois da criação, apesar do pecado original, apesar da arrogância do homem de querer colocar-se no lugar do seu criador, oferece novamente a possibilidade da sua amizade, sobretudo através da aliança com Abraão e o caminho de um pequeno povo, aquele de Israel, que Ele escolhe não com critérios de poder terreno, mas simplesmente por amor".

"É uma escolha que permanece um mistério e revela o estilo de Deus que chama alguns não para excluir outros, mas para que faça uma ponte que conduza a Ele: eleição é sempre eleição para o outro. Na história do povo de Israel podemos refazer os passos de um longo caminho no qual Deus se faz conhecer, se revela, entra na história com palavras e com ações".

“Em Jesus de Nazaré, Deus visita realmente o seu povo, visita a humanidade de um modo que vai além de todas as expectativas: manda o seu Filho Unigênito; faz-se homem o próprio Deus. Jesus não nos diz qualquer coisa sobre Deus, não fala simplesmente do Pai, mas é a revelação de Deus, porque é Deus, e nos revela assim a face de Deus", destacou também o Pontífice.

"Deus está certamente acima de todas as coisas, mas se dirige a nós, escuta-nos, vê-nos, fala, estabelece aliança, é capaz de amar. A história da salvação é a história de Deus com a humanidade, é a história deste relacionamento de Deus que se revela progressivamente ao homem, que faz conhecer a si próprio, a sua face".

O Santo Padre afirmou que "o esplendor da face divina é a fonte de vida, é isso que permite ver a realidade; a luz da sua face é o guia da vida. No Antigo Testamento tem uma figura à qual está conectado de uma forma muito especial o tema da "face de Deus"; trata-se de Moisés, aquele que Deus escolhe para libertar o povo da escravidão do Egito, doa-lhe a Lei da aliança e o conduz à Terra prometida".

Depois de descrever que entre Moisés e Deus, o Papa assinalou que por um lado existe “o diálogo face a face como entre amigos”, mas do outro “a impossibilidade, nesta vida, de ver a face de Deus, que permanece escondida; a visão é limitada. Os Padres dizem que estas palavras, “tu me verás por detrás”, querem dizer: tu podes somente seguir Cristo e seguindo vês por trás o mistério de Deus; Deus pode ser seguido vendo as suas costas".

"Algo de completamente novo acontece, porém, com a Encarnação. A busca da face de Deus recebe uma mudança incrível, porque agora esta face pode ser vista: é aquela de Jesus, do Filho de Deus que se faz homem. Nele encontra cumprimento o caminho da revelação de Deus iniciado com o chamado a Abraão, Ele é a plenitude desta revelação porque é o Filho de Deus, é ao mesmo tempo “mediador e plenitude de toda a Revelação”".

O Papa sublinhou deste modo que "Nele o conteúdo da Revelação e o Revelador coincidem. Jesus nos mostra a face de Deus e nos faz conhecer o nome de Deus”.

“Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, não é simplesmente um dos mediadores entre Deus e o homem, mas é “o mediador” da nova e eterna aliança (cfr Eb 8,6; 9,15; 12,24); “um só, de fato, é Deus – diz Paulo – e um só o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Tm 2,5; cfr Gal 3,19-20). Nele nós vemos e encontramos o Pai; Nele podemos invocar Deus com o nome de “Abbá Pai”; nele nos é doada a salvação.

“Também para nós a Eucaristia é a grande escola na qual aprendemos a ver a face de Deus, entramos em relacionamento íntimo com Ele; e aprendemos, ao mesmo tempo a dirigir o olhar para o momento final da história, quando Ele irá nos satisfazer com a luz da sua face. Sobre a terra nós caminhamos para esta plenitude, na expectativa alegre que se realiza realmente no Reino de Deus”.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Santo Agostinho interpretava a Bíblia como os Protestantes?


Santo Agostinho interpretava a Bíblia como os Protestantes?
Recentemente tive a oportunidade de dialogar com um amigo protestante (batista) que me afirmava que diversos Padres da Igreja, entre eles Santo Agostinho, tinham "posturas protestantes", especialmente quando interpretavam Mateus 16,18, passagem esta que - segundo ele - importava em rejeição ao entendimento católico atual sobre o primado de Pedro e o Papado.

Quem foi Santo Agostinho?

Santo Agostinho é considerado como um dos maiores Padres da Igreja. Sua influência para a posterioridade foi notável. O bispo de Hipona era teólogo, filósofo, místico, poeta, orador, apologista e escritor. Nascido em 354 d.C., recebeu uma educação cristã desde menino graças à sua mãe; mas aos 19 anos acabou abandonando a fé católica. Estudou Hornêncio, Cícero e chegou a dar ouvidos aos maniqueus, tornando-se um anticatólico convencido. Após uma longa luta interior, acabou por compreender que era necessária a fé para alcançar a sabedoria e que a autoridade em que se apoiava a fé era a Escritura, avalisada e lida pela Igreja. Depois de opor Cristo à Igreja, descobriu que o caminho que levava à Cristo era precisamente a Igreja. Em 391 foi ordenado sacerdote e em 395 (ou 396) tornou-se bispo. Interveio nas controvérsias contra os maniqueus, donatistas, pelagianos, arianos e pagãos. Morreu em 430, deixando-nos uma enorme quantidade de obras, legado que perdura até os dias de hoje.

Qual a Importância das Obras de Santo Agostinho?

Os escritos de Santo Agostinho (assim como os escritos dos Padres da Igreja e outros escritores eclesiásticos) são importantíssimo não apenas para os estudiosos de Patrística e Patrologia mas também para todos os cristãos que têm o interesse de conhecer a fundo o pensamento da Igreja em seus primeiros séculos e a sua forma de interpretar as Escrituras.

Em virtude destas circunstâncias, tive o desejo de estudar os escritos de Santo Agostinho, não apenas nos pontos em que os protestantes costumam citar, mas em sua totalidade, para que assim pudesse fazer uma comparação justa de seu pensamento.

Santo Agostinho e o Primado de Pedro

Os testemunhos de Santo Agostinho sobre o primado de Pedro são bastante numerosos; no entanto, alguns textos de Santo Agostinho são freqüentemente retirados do seu respectivo contexto ao serem citados por protestantes, induzindo um pensamento contrário. Examinemos alguns desses textos e a visão global do santo acerca desse tema:

- "São Pedro, o primeiro dos apóstolos, que amava ardentemente a Cristo e que chegou a ouvir dele estas palavras: 'Pois eu te digo: tu és Pedro', havia dito antes: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo'. E Cristo lhe replicou: 'Pois eu te digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Sobre esta pedra edificarei esta mesma fé que professas. Sobre esta afirmação que tu fizeste, 'tu és o Messias, o Filho do Deus vivo', edificarei a minha Igreja, porque tu és Pedro'. 'Pedro' é uma palavra que provém de 'pedra' e não o contrário. 'Pedro' deriva de 'pedra', do mesmo modo que 'cristão' deriva de 'Cristo'. O Senhor Jesus, antes de sua Paixão - como sabeis - elegeu aos seus discípulos, a quem conferiu o nome de 'apóstolos'. Entre eles, Pedro foi o único que representou a totalidade da Igreja em quase todas as partes. Por isso, enquanto ele apenas representava em sua pessoa a totalidade da Igreja, pôde escutar estas palavras: 'Te darei as chaves do reino dos céus'. Porque estas chaves eram recebidas não por um único homem, mas pela única Igreja. Daí a excelência da pessoa de Pedro, enquanto que ele representava a universalidade e a unidade da Igreja quando lhe foi dito: 'Eu te entrego', tratando-se de algo que foi entregue a todos. Portanto, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do reino dos céus, escutai o que diz o Senhor, em outro lugar, a todos os seus apóstolos: 'Recebei o Espírito Santo'. E continua: 'Aqueles a quem perdoardes os pecados, estes lhes serão perdoados; aqueles a quem retiverdes [os pecados], estes lhes serão retidos'. Neste mesmo sentido, o Senhor, depois de sua ressurreição, confiou também a Pedro suas ovelhas, para que as apascentasse. Não é que ele fosse o único dos discípulos que tivesse o encargo de apascentar as ovelhas do Senhor; é que Cristo, pelo fato de se referir a apenas um, quer significar com isto a unidade da Igreja. E se se dirige a Pedro com preferência aos demais é porque Pedro é o primeiro entre os apóstolos. Não te entristeças, apóstolo! Responde uma vez, responde duas, reponde três. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que por três vezes o temor vencer a tua presunção. Três vezes deverá ser desatado o que por três vezes havias atado. Desata pelo amor o que havias atado pelo temor. Apesar de sua debilidade, por primeira, por segunda e por terceira vez confiou o Senhor as suas ovelhas a Pedro" (Santo Agostinho, Sermão 295; PL 38,1348-1352).

Santo Agostinho também escreveu:

- "Cristo - como vês - edificou a sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. Aqui está a rocha para vós; aqui o fundamento; aqui encontra-se onde a Igreja foi edificada, contra a qual as portas do inferno não podem conquistar".

Quando um protestante lê Santo Agostinho dizendo que a pedra sobre a qual se edificará a Igreja é a fé (e não Pedro), assume que tal texto implica em rejeição ao primado de Pedro. Isto ocorre porque eles interpretam que, sendo a fé "a pedra" sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja, isto implicaria que qualquer pessoa que confessasse a Cristo como Filho de Deus por revelação divina será também uma pedra em que se edifica a Igreja; com efeito, poderia "ligar e desligar" tal como Pedro. Sob esta ótica, todos os cristãos teriam a mesma autoridade [que Pedro]; os bispos e presbíteros teriam a função de apascentar o rebanho; porém, em última instância, a interpretação final da Escritura repousaria em cada crente.

O Catecismo da Igreja Católica explica a posição católica da seguinte maneira:

- "No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar (cf. Mc. 3,16; 9,2; Lc. 24,34; 1Cor. 15,5). Jesus lhe confia uma missão única. Graças à uma revelação do Pai, Pedro confessou: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. Então Nosso Senhor lhe declarou: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Hades não prevalecerão contra ela' (Mt. 16,18). Cristo, 'Pedra viva' (1Ped. 2,4), assegura à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte. Pedro, em razão da fé confessada por ele, será a rocha inquebrantável da Igreja. Terá a missão de custodiar esta fé perante todo desfalecimento e de confirmar nela os seus irmãos (cf. Lc. 22,32)" [CIC 552].

- "Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: 'A ti te darei as chaves do Reino dos céus; e o ligares na terra será ligado nos céus; e o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt. 16,19). O poder das chaves designa a autoridade para governar a casa de Deus, que é a Igreja. Jesus, 'o Bom Pastor' (Jo. 10,11) confirmou este encargo após sua ressurreição: 'Apascenta as minhas ovelhas' (Jo. 21,15-17). O poder de 'ligar e desligar' significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar sentenças doutrinárias e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos (cf. Mt. 18,18) e particularmente pelo de Pedro, o único a quem foi confiada explicitamente as chaves do Reino" [CIC 553].

- "O Senhor fez de Simão, a quem deu o nome de Pedro, e somente a ele, a pedra de sua Igreja. Lhe entregou as chaves dela (cf. Mt. 16,18-19); o instituiu pastor de todo o rebanho (cf. Jo. 21,15-17). 'Resta claro que também o Colégio dos Apóstolos, unido à sua Cabeça, recebeu a função de ligar e desligar dada a Pedro' (LG 22). Este ofício pastoral de Pedro e dos demais Apóstolos pertence aos fundamentos da Igreja. Continua pelos bispos sob o primado do Papa" [CIC 881].

Uma análise detalhada dos textos de Santo Agostinho demonstra que a sua postura, mais do que aproximar-se da postura protestante, concorda com a posição católica, reconhecendo a Pedro, em razão da fé confesssada por ele, como o primeiro dos Apóstolos, como representante da Igreja inteira e portador das chaves do reino dos céus. Os bispos em comunhão com ele também podem ligar e desligar (observe-se que o Santo também relaciona, ao contrário dos protestantes, o poder de ligar e desligar com a autoridade de perdoar os pecados).

Vejamos agora alguns textos adicionais de Santo Agostinho que, comparados com outros, nos dão uma perspectiva real da opinião do Santo:

- "Ainda prescindindo da sincera e genuína sabedoria..., que em vossa opinião não se encontra na Igreja Católica, muitas outras razões me mantém em seu seio: o consentimento dos povos e das gentes; a autoridade, erigida com milagres, nutrida com a esperança, aumentada com a caridade, confirmada pela antigüidade; a sucessão dos bispos desde a própria sé do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor confiou, depois da ressurreição, o apascentamento de suas ovelhas até o episcopado de hoje; e, por fim, o próprio apelativo de 'católica', que não sem razão apenas a Igreja alcançou... Estes vínculos do nome cristão - tantos, grandiosos e dulcíssimos - mantêm o crente no seio da Igreja católica, apesar de que a verdade, por causa da torpeza de nossa mente e indignidade de nossa vida, ainda não se apresenta" (Santo Agostinho, C. ep. Man. 4,5).

No texto anterior, Santo Agostinho demonstra ver diferença entre a confissão de fé com o ministério do episcopado. Nem todos, por apenas confessar a fé, são bispos; tampouco todos são sucessores do apóstolo Pedro enquanto o seu ministério.

- "Se a sucessão dos bispos for levada em conta, quanto mais certa e benéfica a Igreja que nós reconhecemos chegar até o próprio Pedro, aquele que portou a figura da Igreja inteira, a quem o Senhor disse: 'Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela'. O sucessor de Pedro foi Lino, e seus sucessores em ordem de sucessão ininterrupta foram estes: Clemente, Anacleto, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Aniceto, Pio, Sótero, Eleutério, Victor, Zeferino, Calisto, Urbano, Ponciano, Antero, Fabiano, Cornélio, Lúcio, Estêvão, Sisto, Dionísio, Félix, Eutiquiano, Caio, Marcelino, Marcelo, Eusébio, Miltíades, Silvestre, Marcos, Júlio, Libério, Dâmaso e Sirício, cujo sucessor é o presente bispo Anastácio. Nesta ordem de sucessão, nenhum bispo donatista é encontrado" (Santo Agostinho, Ep. 53,2).

Novamente aqui vemos o mesmo. Para o santo bispo de Hipona, o ministério concedido a Pedro era desempenhado especificamente pelos bispos de Roma em sucessão ininterrupta. Logo após apresentar este texto a um amigo protestante, ele manteve sua teimosia: "Não vejo aí nenhum Papado". Atitude particularmente obstinada, para quem lê um texto onde se fala da sucessão apostólica dos bispos de Roma, da sua sucessão no ministério do Apóstolo Pedro e, como não fosse suficiente, da lista dos papas até Anastácio (o Papa da época). Que mais poderia querer? Que fosse apresentado o título de "Papa"? Ora, isto também ocorre em inumeráveis ocasiões, as quais seria muito trabalhoso enumerar; conformemo-nos, pois, em apontar uma delas: na obra, "Sobre o Pecado Original", aparece 13 vezes nos capítulos 2, 7, 8 e 9. Ali se expressa, com muita reverência, sobre os pontífices e se lêem frases como "o mais bendito papa Zózimo em Roma" (capítulo 2), "o venerável papa Zózimo" (capítulos 8 e 9), "o mais bendito papa Inocêncio" (capítulos 8 e 10), "o mais bendito papa Zózimo" e "o santo papa Inocêncio" (capítulo 9), "o santo papa Zózimo" (capítulos 10 e 19) e "o papa Inocêncio, de bendita memória" (capítulo 19).

Há evidência adicional suficiente para estarmos seguros de ir contrário à tendência que propõe a negação do primado na raiz destas frases existentes nos sermões do Santo. Quem pensa assim deveria explicar se compartilham do mesmo pensamento de Santo Agostinho quando este afirma que a igreja dos donatistas não pode ser a verdadeira por não ser católica, una, santa e apostólica e que quem se afasta da Igreja sacrifica a sua própria salvação (Bapt. 4,17.24). Segundo estas afirmações, bastaria a confissão de fé como fundamento para a edificação da Igreja?

Diferentemente da postura protestante, para Santo Agostinho não havia motivo justo para se realizar a separação da Igreja e criar a própria (seita), separada dela (E. Cp Parm 2,11,25). Santo Agostinho vê na Igreja de Roma aquela “in qua semper apostolicae cathedrae viguit principatus” [=aquela em que sempre esteve vigente o principado da cátedra apostólica] (Ep 43,7), afirmação que é um reconhecimento claro do primado da Igreja de Roma. Inclusive, atribui a máxima importância às sentenças de Roma em matéria de fé como, por exemplo, quando combate o Pelagianismo. Assim, quando Santo Agostinho disse que as chaves foram recebidas não apenas por Pedro, mas toda a Igreja, está defendendo não apenas o primado petrino, mas também de seus sucessores.

- “Sicut enim quaedam dicuntur quae ad apostolum Petrum propriae pertinere videantur, nec tamen habent illustrem intellectum, nisi cum referuntur ad Ecclesiam, cuius ille agnoscitur in figura gestasse personam, propter primatum quem in discipulis habuit” [=Algumas coisas - se diz - parecem pertencem propriamente ao apóstolo Pedro; porém (aqueles que assim pensam) não têm um entendimento iluminado, pois devem se referir à Igreja, da que se confessa representada pela figura de sua pessoa em razão do primado que teve entre os discípulos] (In Ps CVIII, t. XXXVII, col 1431).

Para Santo Agostinho, pela comunhão com a Sé Apostólica se obtém a adesão aos apóstolos e, assim, se está na verdadeira Igreja. É de se entender, portanto, que para ele o testemunho da Igreja do Ocidente é decisiva, já que no Ocidente se encontra a Sé do Príncipe dos Apóstolos:

- “Puto tibi eam partem orbis sufficere debere, in qua primum apostolorum voluit Dominus gloriosissimo martyrio conorare. Cui Ecclesiae praesidentem beatum Innocentium si audire voluisses, iam tum periculosam iuventutem tuam pelagianis laqueis exuisses” [=Creio que deve bastar para ti essa parte do Orbe, na qual o Senhor quis coroar o primeiro dos Apóstolos com um martírio gloriosíssimo. Se quisesses ouvir ao beato Inocêncio, que é quem preside a esta Igreja, livrarias a tua arriscada juventude das armadilhas pelagianas] (Contra Iulianum pelagianum, I, IV, 13 t. XLIV, col 648).

Adicionalmente vemos o bispo de Hipona submeter as suas obras ao papa Bonifácio, não para o instruir, mas para solicitar-lhe sua aprovação e censura caso necessário: “Haec ergo quae... respondeo, ad tua potissimum dirigere sanctitatem, non tam discenda quam examinanda, et ubi forsitan aliquid displicuerit emendanda, constitui” [=Estas coisas que... respondo, decidi dirigí-las de modo especial à sua santidade, não para instruí-lo, mas para que sejam examinadas e, onde talvez haja algo inconveniente, seja emendado] (Contra duas epist. Pelag. I, 1 t. XLIV, col 549-551).

Logo, é de se entender o porquê de Santo Agostinho também se referir ao bispo de Roma como "o Bispo da Sé Apostólica". No livro 6 de sua réplica a Juliano, rebate suas calúnias ao Papa Zózimo:

- "Por que, para persistir em teu erro perverso, acusas de prevaricação ao bispo da Sé Apostólica, Zózimo, de santa memória? Pois em nada se afastou da doutrina de seu predecessor, Inocêncio I, a quem temes pronunciar o nome. Preferes citar Zózimo porque em princípio agiu com certa benevolência em relação a Celéstio..." (Contra Iulianum pelagianum, VI, XII, 37).

Outro detalhe digno de menção constituiu para ele o fato ocorrido em 422, quando o papa Bonifácio I enviou três cartas respectivamente para os bispos de Tesália, da Ilíria e a Rufo, vigário do Pontífice e metropolita de Tesália. O motivo das cartas era a deposição ou exclusão do bispo Patros Perigênio, batizado e educado em Corinto. Os fiéis de Patros não aceitavam [a deposição], os coríntios reclamavam e os bispos de Tesália, por sua vez, tinham eleito Máximo como pastor da cidade. Nas três cartas se aprecia a consciência ou segurança do Vigário de Cristo como juiz ou instância última para os problemas da Igreja.

Inclusive, há teólogos protestantes que têm aceitado a posição de Santo Agostinho em favor do Primado Romano. O dr. Cesar Vidal Manzanares, em seu "Dicionário de Patrística", exlica:

- "...Eclesiologicamente, Agostinho não é unívoco na utilização do termo 'igreja', fazendo referência tanto à comunidade dos fiéis, edificada sobre o fundamento apostólico, como ao conjunto dos predestinados que vivem na feliz imortalidade. Considera herege não ao que erra na fé (Ep. XLIII, I) mas ao que “resiste à doutrina católica que lhe é manifestada" (De Bapt. XVI, 23), a qual encontra-se expressa no símbolo batismal, nos concílios (Ep. XLIV, I) e na Sé de Pedro, que sempre desfrutou do primado (Ep. XLIII, 7)”.

Uma curiosidade: abordando o tema em um foro católico, uma das participantes perguntou ao meu amigo protestante: "Porém... Leste os escritos de Santo Agostinho"; ao que respondeu: "... Não". Tive que me conter, para não replicar: "Então por que tentas ensinar o pensamento agostiniano?".

Santo Agostinho, a Igreja e a Tradição

Santo Agostinho adere plenamente à autoridade da fé, a qual é a autoridade Cristo (C. acad. 3,20,43) manifestada na Escritura, na Tradição e na Igreja (nada de 'sola Scriptura' e livre interpretação particular, ao estilo protestante!). Inclusive, chega a responder taxativamente aos maniqueus:

- "Eu não creria no Evangelho se a isso não me movesse a autoridade da Igreja Católica" (C. ep. Man. 5,6; cf. C. Faustum 28,2).

Para Santo Agostinho, é a Igreja que estabelece o cânon das Escrituras (De doct. Chr. 2,7,12), transmite a Tradição e interpreta a ambas (De Gen. litt. O . i. l. 1), dirime as controvérsias (De bapt. 2,4,5) e prescreve a regra de fé (De doct. Chr. 3,2,2). Afirma Santo Agostinho: "Permanecerei seguro na Igreja qualquer que seja a dificuldade que se apresente" (De bapt. 3,2,2), pois "Deus assentou a doutrina da verdade na cátedra da unidade" (Ep. 105,16).

Chega a responder aos pelagianos que deve ser tido por verdadeiro tudo o que a Tradição nos transmitiu, mesmo quando não for possível explicar (C. Iul. 6,5,11), pois os Padres "têm ensinado na Igreja aquilo que da Igreja aprenderam" (C. Iul. o. i. 1,117; cf. C. Iul. 2,10,34).

Santo Agostinho e a Virgem Maria

Santo Agostinho é outro firme defensor da Virgindade Perpétua de Maria. Afirma:

- "Virgem concebeu, virgem deu à luz e virgem permaneceu" (Serm. 51,18).

A Volusiano, quando este interpunha as dificuldades da razão, replica:

- "Concedamos que Deus possa fazer alguma coisa que devamos confessar sem indagar. Em tais coisas, toda a razão de fato é o poder de quem pode fazer" (Ep. 137,2,8).

Explica também que Maria emitiu o seu propósito de virgindade antes mesmo da Anunciação, dando início ao ideal cristão da virgindade (Serm. 51,26) e que, embora tenha sempre permanecido virgem, era verdadeiro o matrimônio e o afeto conjugal que a unia a José (De nupt. Et conc. 1,11,12).

Também é um expoente da maternidade divina e não duvida em afirmar que "Deus nasceu de uma mulher" (De Trin. 8,4,7).

- "Como é possível confessar na regra de fé que cremos no Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, se se nascido de Maria foi não o Filho de Deus, mas o Filho do homem? Que cristão nega que dessa mulher nasceu o Filho do homem? Mas, Deus feito homem e, portanto, o homem feito Deus" (Serm. 186,2).

Um episódio em seu conflito com o Pelagianismo deu margem para que Santo Agostinho expressasse a sua opinião acerca do estado imaculado da Virgem Maria. Juliano, discípulo de Pelágio, escreveu a Santo Agostinho: "Tu entregas Maria ao diago em razão do nascimento"; ou seja, se [Agostinho] afirmava que o pecado original era transmitido pela geração natural, Maria teria sido súdita do diabo, porque desta maneira descendeu e deste modo foi concebida por seus pais. A isto contestou Santo Agostinho:

- "Não confiamos Maria ao diabo pela condição de seu nascimento, mas que a condição do nascimento foi eliminada pela graça da regeneração" (C. Iul. O. i. 4,122).

Também declarou a este respeito, falando do pecado:

- "Exceção feita à santa Virgem Maria, a qual, pela honra devida ao Senhor, não tolero em absoluto que se faça menção ao se tratar de pecado" (De nat. et. gr. 36,42).

Assim, na concepção do Santo, Maria é modelo da Igreja, pelo esplendor de suas virtudes e pela graça de ser corporalmente o que a Igreja deve ser espiritualmente, isto é, virgem e mãe; virgem pela integridade da fé, mãe pelo fervor da caridade (Serm. 188,4; 191,4; 192,2).

Resta claro que os protestantes não concordariam com o pensamento do Santo em nenhum dos pontos anteriores...

Santo Agostinho, o Pecado Original e a Necessidade do Batismo

Santo Agostinho é um dos maiores defensores da doutrina do pecado original e da necessidade do batismo. Para ele, todos, inclusive os que nascem de um matrimônio de crentes, devem ser regenerados pelo batismo, ao qual chama "banho de regeneração", já que diferentemente dos pecados pessoas, o pecado original se contrai do pais:

- "...declararei, segundo a fé católica, que qualquer que seja o seu nascimento, [as crianças] são inocentes no que diz respeito aos pecados pessoais e culpadas em razão do pecado original" (Contra Iulianum Pelagianum III, XXIII, 52).

Para o Santo, a heresia pelagiana é extremamente grave por negar às crianças o revestimento de Cristo.

- "Este nosso adversário, afastando-se da fé apostólica e católica com os pelagianos, não quer que os que nascem estejam sob o domínio do diabo, para que as crianças não sejam levadas a Cristo, arrancadas do poder das trevas e levadas para o Seu reino. E especialmente acusa a Igreja espalhada pelo mundo inteiro, onde todas as crianças durante o batismo recebem em todas as partes o rito da insuflação não por outra razão senão para lançar para fora delas o príncipe do mundo, sob o domínio necessariamente estão os vasos de ira desde que nascem de Adão e não renascem em Cristo; [renascidas em Cristo,] são transladadas para o Seu Reino, já que se tornam vasos de misericórdia pela graça" (Contra Iulianum Pelagianum II, XVIII, 33).

Imerso no pensamento da época, Santo Agostinho tem dificuldades para vislumbrar qual será o estado das crianças nascidas sem o batismo e, inclusive, declara-se ignorante da natureza da pena que poderá ocasionar-lhes este estado:

- "...Não digo que as crianças que morrem sem o batismo de Cristo serão castigadas com uma pena tão grande que mais lhes valeria não terem nascido, porque o Senhor não pronunciou estas palavras fazendo referência a qualquer pecador, mas dos criminosos e ímpios. Se a sentença que pronunciou sobre Sodoma não deve ser entendido somente em relação aos sodomitas, já que no dia do juízo alguns serão castigados mais gravemente que outros, quem pode duvidar que as crianças não batizadas, que morrem sem pecado pessoal algum, apenas com o [pecado] original, sofrerão a pena mais leve de todas? Ignoro qual será a natureza desta pena... porém, vós, que os considerais livres de toda culpa, não queirais pensar na classe de penas a que condenais [essas crianças], privando da vida e do reino de Deus a tantas imagens suas, separando-as de seus piedosos pais, a quem tão claramente exortais a procriar. É injusto que as crianças sofram castigo se não tiverem pecado; porém, se seu castigo é justo, é necessário reconhecer nelas a existência do pecado orginal" (Contra Iulianum Pelagianum III, XI, 44).

Em sua carta a São Jerônimo, escreveu:

- "Sou vítima de grandes angústias, acreditai, quando se toca neste ponto sobre o castigo das crianças e não sei absolutamente o que responder" (Ep. 166,6,16: PL 33,727).

A Igreja hoje reconhece a necessidade do batismo para a salvação, mas também reconhece que é possível haver salvação para as crianças não batizadas, por "caminhos desconhecidos por ela".

Antes de comparar a posição de Santo Agostinho com o mundo protestante, temos que esclarecer que entre estes há duas posturas dissonantes. Os anabatistas (maioria atualmente), que negam a existência do pecado original e a necessidade do batismo das crianças e os de tendência luterana e calvinista, que confessam crer na doutrina do pecado original. Em suas confissões de fé - como a de Augsburgo de 1530 - se lêem condenações à posição anabatista e se professa a necessidade de batizar as crianças para que estas se salvem; a confissão de Westminster reconhece a necessidade do batismo e considera pecado grave o descuido e menosprezo do sacramento (no entanto, admite que é possível alguém obter a salvação sem que tenha sido batizado). Com efeito, pode-se dizer que a posição de Santo Agostinho é radicalmente oposta à majoritária tendência anabatista e eu me atreveria a afirmar que ele a combateria com o mesmo fervor e eficácia com que combateu ao Pelagianismo.

É curioso que tenham sido as denominações protestantes que ressuscitaram a heresia da negação do pecado original, pois isto implica na depreciação da necessidade da obra redentora de Cristo, explicada claramente pelo apóstolo São Paulo no capítulo 5 da epístola aos Romanos.

Conclusão

Santo Agostinho era protestante? Se sim, deve-se contestar as seguintes perguntas:

1. Os protestantes crêem que os bispos de Roma são os sucessores do apóstolo Pedro e a Sé Apostólica é a Igreja de Roma? Reconhecem as determinações do Papa em matéria de fé e se submetem à sua censura?

2. Os protestantes crêem que não é herege quem erra na fé, mas aquele que resiste à doutrina católica que lhe é manifestada?

3. Os protestantes opinam que não creriam no Evangelho se não lhes movesse a autoridade da Igreja Católica?

4. Os protestantes crêem que é a Igreja Católica quem transmite a Tradição e a interpreta, resolve as controvérsias e prescreve a regra de fé?

5. Os protestantes crêem que deve-se permanecer seguro na Igreja qualquer que seja a dificuldade que se lhes apresente?

6. Os protestantes crêem que Deus assentou a doutrina da verdade na cátedra da unidade?

7. Os protestantes crêem que Maria permaneceu Virgem por toda a vida?

8. Os protestantes crêem que Deus nasceu de uma mulher?

9. Os protestantes crêem que, no que tange a Maria, é intolerável que se fale de pecado?

10. Os protestantes crêem que o batismo é necessário para a salvação, removendo o pecado original e os demais pecados?

11. Os protestantes crêem que é imoral negar o batismo às criança, já que se lhes impede de revestirem-se de Cristo e nascer novamente?

Se a todas essas questões você puder responder com um "sim", então Santo Agostinho era protestante (e se fosse assim, quem nos dera que tivéssemos mais protestantes assim!).

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BIBLIOGRAFIA:
1. BAC 422. Patrología III, Instituto Patriótico Augustinianum.
2. BAC 457. Obras Completas de San Agustín, XXXV.
3. Catecismo Oficial da Igreja Católica.
4. Diccionario de patrística, Cesar Vidal Manzanares.
5. Mariología, José C. R. García Paredes.
6. Early Church Fathers [CCEL].


Fonte: http://www.apologeticacatolica.org/
Tradução: Carlos Martins Nabeto